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Imagine Cup 2005: Transcrição de uma lição de vida RRS feed

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  • Segue em anexo um relato sobre minha experiência na Imagine Cup 2005. Espero que possa inspirar os demais a participarem...

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    -- AFurtado

    Diário da Imagine Cup: Transcrição de uma Lição de Vida

            Julho de 2004. Lá estava eu em São Paulo, em minha primeira viagem a trabalho, assistindo ao PDC / TechEd Brasil 2004, o maior e mais famoso evento anual da Microsoft no Brasil. Logo no primeiro dia do evento, subiu ao palco o Somasegar, o indiano que é vice-presidente corporativo da divisão de desenvolvimento da Microsoft. O “Soma”, como é mais conhecido, anunciava que os vencedores da Imagine Cup 2004 seriam conhecidos naquele momento.

            Aquele nome, “Imagine Cup”, me trazia memórias bem peculiares. Eu havia conhecido a competição naquele mesmo ano de 2004 e, juntamente com o Marden Menezes e o Renato Guimarães, encarei o desafio de competir na categoria principal da competição, a de Software Design (bons tempos em que estudantes embaixadores podiam competir juntos...). A empreitada não rendeu muita coisa: a inscrição foi feita meio de última hora e terminamos com apenas um único fim de semana para trabalhar, o que resultou em nossa não tão inesperada eliminação. Igualmente sem sucesso foi minha participação em outra categoria na qual também havia me inscrito, a de Short Film (filme de curta-metragem): os prazos vieram e se foram, ignorados e trocados por ocupações do mestrado.

            Mas enfim, lá estava o Soma, naquele chuvoso 6 de julho de 2004, anunciando as equipes vencedoras da competição. Os donos da festa foram os franceses, quatro estudantes que explodiram de felicidade quando o nome de sua equipe foi anunciada como a grande campeã. O momento mais marcante para mim, contudo, ainda estaria por vir: a troca oficial da sede da competição. O Marcos Pinedo, diretor de estratégia .NET da Microsoft Brasil, trocava com um cidadão de olhos puxados a bandeira nacional pela japonesa. Naquele momento, a peculiar, distante e lendária ilha oriental estava definida como o destino de 250 estudantes, do mundo todo, que a fizessem por merecer em 2005. Alguns colegas do Centro de Tecnologia XML, próximos a mim, brincavam entre si: “e aí, vamos para o Japão em 2005?”. E eu desejei que as promessas daquele dia não caíssem no vazio. Estava no ar mais um desafio. Estava aberta a Imagine Cup 2005!

            Alguns meses se passaram, e em Dezembro de 2004 voltei a pensar profundamente no assunto. Naquele mês, fui nomeado Estudante Embaixador da Microsoft, e entre minhas metas estava a divulgação da Imagine Cup 2005. Então questionei que credibilidade eu teria para convencer os outros a participar da competição, se eu mesmo não estava competindo. Aliando isso à chance de conhecer o Japão, país aparentemente tão inacessível, eternamente presente na curiosidade e imaginação, nenhum outro estímulo foi necessário. Alguns segundos depois, já estava preenchendo o formulário de cadastro no site da competição. Selecionei as mesmas categorias do ano anterior (Software Design, por satisfação, e Short Film, por pura diversão) e finalizei a inscrição, já pensando em idéias para ambas e em quem estaria disposto a formar equipes comigo.

            A divulgação da competição teve lá seus resultados. Muitos amigos se inscreveram em suas categorias de preferência, e um efeito interessante aconteceu: o entusiasmo deles acabou me convencendo a me inscrever em outras categorias também. Leonardo Sobral e Igor Gatis, que por muito tempo mantiveram uma equipe de “programação para competição” na UFPE, que até chegou a disputar um campeonato internacional no Havaí, conversavam sem cessar sobre as questões da quiz que precisavam ser resolvidas diariamente na categoria de Algoritmos. Inscrevi-me nela por curiosidade e terminei vivendo o desafio diário também. Coincidência ou não, acabamos os três, juntos com o Gustavo Danzi, formando a equipe Solvent-SD, para concorrer na categoria de Software Design.

            O Eduardo Apolinário, do Centro XML Recife, por sua vez, comentava como era interessante e instigante a inteligência artificial a ser desenvolvida para o jogo da categoria Visual Gaming. Fui dar uma olhada e acabei me viciando completamente na categoria, virando noites, como qualquer outro estudante de computação mais empolgado, para participar das “prévias” da categoria, que me incentivaram ainda mais (visto que estava conseguindo segundos e terceiros lugares contra estudantes de todo o mundo).

            E assim, aos poucos, percebi que não teria nada a perder em aumentar minhas chances de conhecer o tão almejado Japão, maximizando a quantidade categorias inscritas. O fato da etapa inicial da competição exigir apenas um resumo dos trabalhos propostos para a maioria das categorias (cerca de 5 páginas) indicava que isso seria viável, pelo menos em um momento inicial.

            Da disciplina de Empreendimentos em Informática, que havia cursado meses antes na UFPE, veio a idéia para a categoria de Business Plan. De um artigo sobre softwares educativos e colaborativos, que publiquei em 2003 no Simpósio Brasileiro de Informática na Educação, veio o fôlego para a inscrição na categoria Web Development. Da experiência de trabalho na Qualiti Software Processes e Centro XML Recife, tornou-se madura uma idéia para a categoria Office Designer. E por aí foi... Quando me dei conta, estava inscrito, com esperanças e disposição, em oito das nove categorias da competição, cada uma com um grupo de pessoas diferentes, não apenas para evitar sobrecarga como também para aumentar o tamanho da possível comitiva brasileira no oriente. Ficou restando apenas a categoria de Rendering, a única em que tinha certeza de não haver chances, dadas as minhas limitadas habilidades em computação gráfica. Hoje, entretanto, até me arrependo de não ter participado dessa categoria também, pois poderia muito bem ter me articulado com pessoas mais capacitadas na área e contribuir com minha criatividade ao talento delas, além de aprender bastante em todo o processo.

            Estava, então, iniciado um período de quatro (longos) meses de muito trabalho, esforço e abdicações. Não foram raros os momentos em que família, namorada, esportes, diversão e descanso precisam ser colocados um pouco de lado, em detrimento da obsessão por conhecer o Japão e explorar o próprio potencial. Pode até parecer demagogia, mas para mim já estava comprada a responsabilidade de contribuir, em alguma coisa, para que resto do globo sentisse um gostinho sobre do que pernambucanos e brasileiros são capazes.

            Combinei comigo mesmo uma meta extremamente ousada: ser campeão internacional de duas categorias da competição. Embora possuindo um alto preço, como conhecer o que significa passar 48 seguidas em claro, esse era um investimento em cujos resultados eu acreditava, e sabia que não tinha nada a perder com aquela ambição excessiva. Uma metáfora em especial me motivava: uma que dizia que os arqueiros miravam sempre acima do alvo, para compensar a gravidade que fatalmente puxaria suas flechas para baixo. Mirar na conquista internacional de duas categorias era realmente algo bem acima do alvo, e eu esperava que minhas flechas (o esforço em cada categoria) pudessem vencer a gravidade (o cansaço e a falta de coragem). Hoje, lendo o blog do Soma (o indiano), fico feliz em saber que ele compactua do mesmo espírito ambicioso. Diz ele: “mire nas estrelas que você chegará ao topo da árvore; mas mire no topo da árvore e você pode não sair do chão”.

            O que se seguiu foi uma alternação entre decepções e sucessos. Muitas decepções. Muitos sucessos. Minha sobrevivência na competição foi naturalmente se exaurindo, categoria por categoria, principalmente naquelas que não eram minha especialidade, embora deixassem um valioso rastro de experiência e aprendizado. Enquanto isso, outras categorias resistiram bravamente, rendendo momentos de satisfação para ficar na memória: ficamos no grupo dos 60 melhores projetos do Visual Gaming, tivemos o único time brasileiro a ir para a semifinal (top-30) do Short Film, fomos classificados para a semifinal de Office Designer e chegamos à final nacional de Software Design, em São Paulo.

            Daí em diante, outros dois momentos simplesmente mágicos chegaram: vencemos a final nacional em Software Design e chegamos ao grupo dos seis melhores no Office Designer. Em outras palavras, lá estavam sete estudantes pernambucanos, do mesmo Centro de Informática da UFPE, com o passaporte carimbado para as terras nipônicas, representando quase 90% dos atletas brasileiros na competição. Sentir-se responsável por parte disso é uma satisfação que não tem preço, que me acompanhará pelo resto de minha vida.

            Vencida essa etapa, a tentação de considerar o dever cumprido bateu forte. Mas realmente aquele não era o momento de ser medíocre e resumir tanto esforço, dispensado meses a fio, em um simples passeio turístico. Incorporando o mais típico espírito do “Sou brasileiro e não desisto nunca!”, concordamos todos em não ser figurantes daquela história. Tínhamos clara noção do nosso potencial e agora era o momento da superação, ou melhor, da super-ação: viramos noites em terras nipônicas para finalizar as aplicações e ensaiar as apresentações, trancados em quartos de hotel por dias enquanto o Japão desconhecido nos esperava do lado de fora. E mais uma vez a vontade de explorar ao máximo o próprio potencial, além da segurança passada pelo Rogério Panigassi (diretor acadêmico e um verdadeiro pai de toda a comitiva brasileira) e os incentivos dos amigos brasileiros através dos comentários no The Spoke, permitiram a continuidade da jornada.

            E enfim veio o reconhecimento e a recompensa. Conseguimos transmitir aos juízes nossas idéias; mostramos que temos capacidade de competir de igual para igual com universidades em qualquer lugar do mundo, mesmo possuindo, por muitas vezes, recursos e investimentos inferiores. Saímos da Imagine Cup com o quarto lugar na categoria mais difícil da competição (Software Design), enfrentando outros 40 países e ficando na frente de potências como Estados Unidos, Inglaterra ou Índia, por exemplo. Na segunda categoria mais importante da competição, a de Office Designer, a equipe Solvent-OD subiu no lugar mais alto do pódio para marcar de vez a competência daquela bandeira verde-amarela. A soma desses resultados com outros obtidos, como o quinto lugar na categoria Visual Gaming, segundo lugar na Web Development High School e o primeiro lugar no número de inscrições, coroou o esforço brasileiro na competição.

            Após a Imagine Cup, aproveitamos os dias restantes no Japão com uma sensação de dever cumprido e uma alegria tão intensa que afirmo sem dúvidas que a dedicação inicial à competição tornou nossa posterior experiência turística muito mais fantástica.          Hoje, alguns meses depois de nosso retorno, acho que consigo mensurar melhor o que me trouxe a competição. Obviamente, são facilmente identificados os frutos diretos de nosso esforço: visibilidade profissional, seja na imprensa ou na comunidade, reconhecimento (como na recepção feita pelo Governador do Estado), conscientização de nossos feitos e necessidades através da realização de apresentações para escolas, universidades e para entidades como a Comissão de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa, entre tantos outros.

            Mas muito mais do que eventos, troféus, fotos ou memórias, estou enxergando a Imagine Cup cada vez mais como um divisor de águas em minha carreira profissional. O networking desenvolvido na competição, não apenas com grandes nomes de empresas internacionais como também com os próprios alunos, ampliou meus horizontes de maneira antes nunca vivenciada. Muitas propostas batem à porta; várias nacionais, algumas até internacionais. Hoje, sinto-me mais seguro para tomar decisões de natureza profissional e negociar meus interesses, embora ainda munido da humildade e simplicidade típicas de estudante, fortalecidas após a troca de idéias e contatos com colegas de mais de 40 países diferentes.

            Sou realmente grato à Imagine Cup. Acima de tudo, ela foi um mecanismo através do qual me conscientizei de que se as pessoas de potencial e de bem não assumirem as rédeas da responsabilidade, estaremos fadados a aceitar o Brasil como o país do eterno futuro, ou até mesmo a compactuar com a inércia da ausência de ações corretivas das quais o mundo precisa há centenas de anos. É parecido, mais ou menos, com o que falei (ou tentei falar) no Japão durante o discurso em que fomos anunciados como vencedores:

            “A Imagine Cup é uma competição que envolve muitas nacionalidades, muitas categorias, muitas pessoas, muitas ‘várias coisas’. Mas a coisa de que vou mais me lembrar na competição... é o elevador [risos da platéia]. Cada vez que você entra em um elevador na Imagine Cup, você encontra um grupo de pessoas diferentes e um momento mágico acontece. Você pergunta: “where are you from?” e se delicia com as mais surpreendentes respostas: sou do Equador, do Canadá, da França, de Taiwan, da China, do Sri Lanka, da Antártida, de Marte... E nesses momentos, percebíamos como éramos capazes de transformar o elevador, aquele pequeno lugar, em uma ferramenta de dissolução de barreiras multi-culturais. Então me pergunto: por que não podemos estender esse conceito para todo o mundo, não deixando ele apenas restrito aos elevadores da Imagine Cup? Quando vocês voltarem aos seus países, ou permaneceram no Japão se esse for o caso, lembrem-se disso: de que podemos usar nosso potencial não apenas para criar software, como também para construir um lugar melhor para todos nós. Obrigado!”

     

    quarta-feira, 7 de junho de 2006 04:34